16/01/2012

A intercambista Parte II

Chloe
   Chegou a hora do almoço, eu entrei na fila e peguei qualquer gororoba que tivesse lá, eu estava morrendo de fome, saí do aglomerado de pessoas perto da comida e logo vi a Megan acenando para mim da mesa em que estava
   - Clarence! - Acenei de volta
   - Oi! - Fui até a mesa e me sentei com ela e mais algumas pessoas, um garoto com moicano roxo, uma menina loirinha e com grandes olhos verdes por trás das lentes do óculos, mais um garoto com cabelo loiro e olhos castanhos, uma outra garota com cabelos pretos e um piercing no nariz, uma menina de maria-chiquinhas no cabelo e uma irmã gêmea com trança embutida
   - Ainda não te apresentei aos meus amigos. Essa é a Chloe - Ela apontou para a menina loirinha - Esse é o Daniel - Ela apontou para o menino de moicano - Essas são a Amber e a Natasha - As gêmeas, Natasha estava de trança - Essa é a Phoebe - A com o piercing no nariz - Esse é o Mason - O loiro com olhos castanhos
Amber e Natasha
   - Oi eu sou a...
   - Sabemos quem você é - A gêmeas falaram juntas, parecendo entusiasmadas
   - Mas.. Como assim, a Megan já falou tanto assim de...
   - Você mudou para a casa assombrada dos Evans - Elas continuaram falando em coro
   - Vocês sempre falam juntas assim? - Nesse momento, enquanto a Natasha disse "não", a Amber disse "sim", depois elas inverteram, até que chegaram a um consenso e resolveram falar
   - Às vezes
   - Mas, então - Comecei dando uma garfada no meu brócolis, ou seria purê de brócolis, não sabia, ainda não sei, e nunca saberei o que comi aquele dia - A família que morava lá eram uns tais de "Evans"?
Phoebe
   - Eram sim. - Confirmou a garotinha de óculos - Próxima à década de noventa, a família  se mudou para aquela casa, era considerada um pouco estranha pelos demais da vizinhança, a mãe colecionava ossos no porão, o pai tinha ficha criminal, a filha mais nova, Catherine era cega, mas sabia tudo o que se passava no cômodo onde estivesse, mesmo sendo cega, e mesmo que seus olhos estivessem fechados, ela saberia tudo. E a filha mais velha, Anne nunca falava, muitos até pensavam que ela era muda. Um dia a família simplesmente sumiu da casa, era como se nunca tivesse existido, o tempo todo, todos falavam neles, mas no dia em que eles sumiram ninguém tocou mais no assunto, talvez por medo, talvez por respeito, mas ninguém mais falava nos "Evans" - Fiquei apavorada com o que quer que fosse dentro da minha boca, mas mantive a expressão neutra
Mason
   - Nossa... Que legal
   - Legal? - O cara de moicano começou - Você acha legal? Eu me borro todo só de ouvir falar nessa casa, você está morando nessa coisa e acha legal?? - Era muito apavorante, mas eu não estava com medo de estar na casa, eles haviam sido tão bons comigo... Era legal, de certa forma
   - Bom...
   - Aconteceu alguma coisa paranormal desde que você chegou? - A menina de piercing perguntou
   - Bem, foi estranho, porque eu devia estar com uma família, mas encontrei a casa vazia, sempre que eu desço as escadas, a mesa está posta, uma porta de um quarto vazio começou a bater quando eu cheguei e quando fui descer para pegar minhas malas, elas estavam na porta do quarto, e também... - Nesse momento, as gêmeas gritaram bem auto, olhei para elas para ver se estavam bem, mas elas estavam olhando esquisito para o mesmo que todos os outros na mesa olhavam igualmente estranho:
Daniel
Daniel e Mason apavorados, o Mason segurando com força o braço do Daniel que estava mordendo com força seu próprio dedo, como eu faço quando vou tomar vacina ou fazer depilação de cera na perna. Logo que notaram o modo como os olhamos, eles se recompuseram e voltaram a comer e agira como homens
   - Ignore, nós somos medrosos mesmo - Mason disse com a boca cheia de carne... Ou seja lá o que fosse aquilo, na Inglaterra ou em Nova York, comida de escola é uma coisa nojenta! - Mas e você? Não tem mesmo medo daquele lugar?
   - Não, aliás, pode parecer loucura, mas a casa tem sido gentil comigo...
   - Um homem se mudou para a quela casa há dois anos - Amber começou e abocanhou alguma coisa no garfo para que a Natasha completasse a frase - ele ficou maluco e se suicidou
                                                                                    ***
    O fim da aula, peguei minha mochila e fui para o armário, o meu armário. Abri e tirei todos os livros e joguei no chão, abri a minha mochila, peguei tudo o que eu havia levado para decorá-lo, não fiz muita coisa, apenas coloquei uma luminária com forma de caveira, um retrato de mim com minhas amigas em Nova York e alguns laços pretos, acomodei de volta os livros e depois corri até o ônibus. Ele já estava saindo, mas eu consegui me agarrar à porta antes que o motorista começasse a correr... Sim, ele começou a andar antes que eu entrasse no ônibus, mas eu conseguir abrir a porta e ver os meus amigos em alguns dos bancos, me sentei ao lado deles e começamos a conversar
   - Então - Chloe começou - Vai fazer o que quando chegar em casa?
   - Entrar na internet, ouvir música, ver TV, fazer alguma coisa que...
   - Você realmente fica confortável naquela casa maligna? - Phoebe perguntou se inclinando entre nossas poltronas
   - Bem... - Logo que comecei a falar, notei o Mason se inclinando da cadeira dele para ouvir a minha resposta, ele estava quase do meu lado agora - Sim, não me fizeram nada de mal...
   - Você é louca! - A Natasha falou, rindo
   - Ah, completamente - Eu comecei a rir junto, então percebi que a Amber conversava com alguém no banco de trás... O Daniel, ela sussurrava coisas como "tá bem, tá bem" ou "já entendi!"
   - Clarence - A Amber começou, olhando para mim - Se não for muito incômodo... Nós ficamos curiosos, a gente queria saber se podemos ir na casa dos Evans, ou melhor, na sua casa, para ver como vocês se entendem, mas se não quiser...
Catherinne
   - Sem problemas, vai ser divertido
   A Megan sussurrava para o Daniel "viu? Ela é legal, eu disse que ela não ia se importar!". Chegamos à minha casa, comecei a seguir a trilha de pedras pelo quintal da frente para guiar os meus amigos até a porta da frente, eu me aproximei vagarosamente dela e bati três vezes, ela se abriu lentamente, entrei e chamei a galera para entrar comigo
   - Eu... Eu não sei... - O Mason falou esfregando as mãos com um olhar apreensivo - Essa casa me dá calafrios, e se ela tentar me desmembrar?
   - Mason, isso não vai acontecer, vocês são amigos meus! Os Evans vão ser legais com vocês - Olhei para um quadro de família que só agora havia notado que tinha no topo da escada - Não é?
   A porta se abriu um pouco mais e a lareira se acendeu sozinha, ele entrou, então sorrimos um para o outro e fomos para frente da lareira, em cima dela tinha um porta-retrato com outra foto de família. Catherinne, uma garotinha pequena com um vestidinho rosa, olhando para o nada, com uma bonequinha na mão, Anne com um cabelo loiro, liso e bem grande, uma blusa listrada rosa e preta e uma saia jeans acompanhadas de sapatos vermelhos e um bracelete de ouro, ela estava séria, mas quase sorrindo, a mãe com vestido branco florido e o pai de terno preto.
Anne
   - Alguém aí... - Eu comecei - Sabe o nome dos pais dessa família?
   Nesse momento todos os quadros que ficavam em uma parede ao lado da mesa em que eu fazia as refeições começaram a vibrar, tinham várias fotos de todos da família, comecei a olhar alguns, a Catherinne sorria num parquinho, com o sol batendo em seu rosto e ela cheirando uma flor enquanto olhava para o nada "Viagem para Irlanda - Catherinne" Estava escrito em ouro na moldura de madeira. Olhei outros quadros, eram todas várias fotos de viagem, vi um quadro da Anne, sentada na areia de uma praia "Viagem para o Hawaii -Anne". E por último vi a foto de um casal num campo enorme e muito bonito "lua de mel na Romênia -Benjamin e Amy"
Benjamin e Amy
   - Que lindos! - A Chloe falou - Eles parecem tão felizes
   - Muito - Natasha confirmou
   Passamos uma ótima tarde juntos, mas quando a noiteceu e eles finalmente saíram da casa, ela bateu a porta com força, ficou meio escura. como se estivesse chateada comigo por algo que eu fiz, naquela hora, eu não nego que senti muito medo. O que eu poderia ter feito que os irritou? Talvez não tenham gostado que eu os expus a outras pessoas, talvez não tenham gostado que tenhamos olhado seus quadros... Ou talvez simplesmente não gostaram que eu disse aos meus amigos que eles não os fariam mal porque eles eram meus amigos, havia algum motivo, mas eu não sabia qual era ainda, o que importava é que eu estava apavorada, sozinha e indefesa naquela casa assombrada numa rua quase vazia

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