02/09/2011

Dear Daddy

   Eu estava quieta, limpando o balcão do bar do meu pai antes de abrir, o dia estava meio quente, mas eu gostava daquilo, adorava viver naquela cidadezinha no meio do deserto... Minhas irmãs trabalhavam dançando lá, todas menos eu, porque eu odeio usar vestido!
Meu cabelo
   - Bom dia, filha! Como vai o meu garoto? - Perguntou o meu pai entrando pelo portão, não gosto quando me chamam de garoto, mas o papai pode, ele faz isso de brincadeira...
   - Bem, pai, eu acho...
   - Bom, bom...
   Eu continuei limpando o balcão, sempre que eu esticava o meu braço para frente, minha trança balançava e batia no meu braço, era até engraçada a sensação, quando terminei de limpar o meu braço já estava doendo, me sentei no banco ao lado do meu pai, ficamos em silêncio, eu comecei a ler um panfleto com a foto de um procurado, um tal de Billy... Gordo, bigodudo, cicatriz na bochecha... Porque eles sempre têm bigodes tão grandes?
   - Pai.
   - Diga, Jenny.
   - Por que os criminosos sempre tem bigodes tão grandes?
   - Bem... - Ele soltou uma risada calma e alegre - É, parece que nessa você me pegou, grandona... Não tenho idéia do porquê os criminosos têm tanto bigode
   Eu comecei a circular pelo bar e peguei o meu violão, encostado atrás do balcão, fui para o lado de fora, sentei num banco na varanda e comecei a tocar para descontrair até que alguém chegasse,
O violão era do meu pai
algumas pessoas chegaram para fazer um lanche pouco antes do meio-dia, foi um dia bem devagar, quase não teve o que fazer, eu contei histórias para as crianças, toquei mais violão, matei um escorpião, penteei o cabelo de uma menininha, que aliás, era uma prima minha, e tirei um cochilo. Logo a noite chegou e eu fui para casa pensando em dormir, mas resolvi passar um tempo fazendo carinho na Kitty, minha égua, ela era muito fofa... E pensando bem, eu era irmã de mais seis garotas e era a única que tinha um cavalo, ou pelomenos, que montava no seu. Todos achavam que eu parecia com um homem, que eu tinha que me afeminar... Começar a usar vestido, parar de andar com armas, parar de andar tanto de cavalo, parar de ser tão "feroz"... Mas eu gostava de ser assim, é claro que isso me fazia ser confundida com um menino muitas vezes, mas eu gostava de ser eu... Logo a minha cabeça já estava extremamente confusa, e eu estava cansada demais para pensar nisso, entrei em casa, já estava subindo as escadas, quando a minha mãe resolve falar
   - Querida, posso falar com você? - Morrendo de sono, eu fiquei imóvel no primeiro degrau da escada, me dava muita raiva quando a minha mãe não me deixava dormir porque queria conversar sobre algo que ela achava que devia mudar em mim ou algo do gênero - Jenny? - Ela se aproximou, eu me controlei para não gritar com ela - Jennifer, querida, você está bem?
Sim, eu uso botas E calça, problema mãe?
   - Estou, mãe - Bufei - Sobre o que quer conversar?
   - Bem, querida - Ela segurou minhas mãos e sentou numa cadeira, eu peguei uma também - As pessoas na cidade andam comentando.
   - Comentando... O que exatamente? - Eu puxei uma cadeira e sentei junto a ela
   - Sei que não vai querer dar atenção a esse assunto, mas como sua mãe, tenho autoridade sobre você. As pessoas na cidade têm comentado o quanto você se assemelha a um homem quase sempre!
   - E...
   - Jenny, você é tão linda, tem olhas tão bonitos, um cabelo tão adorável... - Ela tirou meu chapéu - Por que então fica agindo e parecendo um homem desse jeito?
   - Não vejo problemas em usar calças, são confortáveis, não pinicam
   - Mas e aquele chapéu?
   - Mãe, antes que a senhora continue reclamando, vou defender o chapéu do papai: Primeiro ele me protege do sol, mais do que aquela touca rosa que deixa a minha cabeça gigante e não combina com essa roupa
Essa sou eu de cabelo solto... É, eu fico
mesmo muito linda... 
   - Porque é roupa de homem!
   - É uma roupa confortável que não é escandalosa e machista!
   Revoltada, peguei meu chapéu da mão dela, tomei um banho, pus uma camisola e fui para o meu quarto e das minhas irmãs para dormir. Durante a noite, eu ouvi a minha mãe chorar, provavelmente pelo modo como a tratei, não consegui dormir a noite toda por causa disso, não porque me sentia culpada, já que não sentia, mas porque aquela criatura limitada não parava de chorar como um bebê!! Agora eu sabia o quanto era irritante quando eu era bebê. O fantástico é que quando finalmente peguei no sono.
   - Hora de acordar, meninas! - Meu pai chamou e todas levantaram da cama, graciosas como flores, e isso me enojava! Mas o que eu podia fazer? Eram as minhas irmãs e eu não poderia pedir melhores do que elas! - Jenny. - Ele tocou no meu ombro e eu abri os olhos - Achou - Ele falou como se eu fosse uma criancinha de cinco anos
   - Foi mal, pai, a mamãe não me deixou dormir porque queria conversar e depois ficou chorando
   - Eu sei, ela me contou.
   - Já tô acordando
   - Quer saber? Durma. A Kate às vezes pode ser um pouco emotiva, você precisa descansar, acorde quando puder.
Abbey
   - Obrigada - Eu cobri minha cabeça com o cobertor e na mesma hora dormi
   Abri os olhos, olhei para o relógio, eram duas da tarde, levantei devagar, prendi o meu cabelo, coloquei uma blusa, uma calça e um colete simples, saí de casa, peguei a Kitty e fui até o bar e comecei a atender algumas pessoas, o lugar estava assustadoramente cheio dessa vez. Mas apenas uma pessoa me chamou a atenção: Um garotinho pequeno, correndo desesperado acompanhado de uma outra garotinha, loira, um pouco mais alta que ele, era a garotinha que eu tinha penteado o cabelo no dia anterior, a Abbey
   - Jennifer! - O menininho berrou quando chegou bem perto de mim, olhando para cima - Sequestraram seu papai!

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