| Eu |
- Eu gostava de Glasgow!
- porque você não age como parte dessa família! E vive nos trazendo vergonha!!
- Já para o quarto! -Berrou meu pai comigo
- Vocês não me entendem! Definitivamente não me entendem!!
Eu corri para o meu quarto, me joguei na cama, ai, quanto ódio eu tinha daquela família estúpida! E daquela escola estúpida! Comecei a escrever, escrever um conto revoltante e triste, era deprimente. Eu escrevo quando estou triste, poemas, contos, um monte de coisas assim... Queria voltar para Glasgow, para minhas amigas, para tudo o que me fazia feliz, mas eu não ia.
| Glasgow |
- E nada de computador! - A minha mãe ficou apontando o dedo para mim e depois ficou lá atrás olhando que nem uma retardada, eu estava salvando o arquivo quando ela tornou a falar - Ailie, você já saiu do computador? Vou ter que falar com seu pai?
- Eu estou salvando a droga do arquivo!!
- Desligue isso já!! - Ela meteu o dedo com a unha pintada de rosa shock no botão de desligar do laptop antes que eu pudesse salvar a minha história
- Ai, eu te odeio!!
Saí de perto dela, deitei na minha cama e me cobri com o edredom, ela saiu do quarto e eu fiquei lá, confinada, vendo TV, era exatamente o que eu fazia todos os dias, o dia todo, e eu não aguentava mais essa rotina deprimente que me consumia aos poucos todos os dias. Chegou a noite e eu dormi na minha hora, mal humorada, deprimida, estérica de raiva, mas dormi.
| Mocha do starbucks |
- Que é??! - Eu levantei
- O ônibus escolar vai chegar em cinco minutos!
- AI MEU DEUS!!
Saí da minha cama aos pulos, peguei uma blusa preta de mangas compridas, depois uma regata branca cheia de rabiscos pretos por cima, peguei um colar, mas estava embolado com outros, então eu pus tudo de uma vez, depois coloquei um short jeans com uma meia-calça preta de rendas e um coturno rosa, improvisei meu café num mocha da starbucks que estava sobrando lá na geladeira, devia ser da mamãe do dia anterior, ela sempre compra, mas põe na geladeira e nunca tem tempo de beber... Vai entender, né?
No ônibus eu fiquei conversando com a Edna e combinamos de ir à casa dela depois da aula, meus pais não saberiam, e nem desconfiariam, eu só queria ficar longe deles. Durante a aula, umas patricinhas ficaram me ridicularizando e uma delas até jogou pedacinhos de cola endurecida no meu cabelo, umas outras até chutaram a minha mochila do Yoshi, mas eu fiquei quieta pelo bem da minha amiga, Edna, não queria sujar a imagem dela, podiam começar a pensar que ela se fazia de hippie e era encrenqueira. O meu ódio só aumentava e ia acumulando e aumentando, mas eu mantive a calma.A hora do almoço chega, eu vou pegar a minha gororoba de brócolis e quando eu finalmente estava me encaminhando para a minha mesa, me bati com alguém e derubei meu almoço, olhei para cima e era aquele garoto de cabelo preto
- Ai, desculpa! Eu manchei sua blusa toda com esse goró!
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| É. Era branca mesmo... |
- Eu vou te ajudar, afinal, essa blusa é branca... É o mínimo que eu poderia fazer - Fui pegar uns guardanapos que estavam na bancada ao meu lado enquanto ele falava
- Na verdade, o mínimo que você poderia fazer é nada - Ele riu e eu ri junto
- Sou Ailie... - Estiquei o meu braço para um aperto de mãos
- Willie, prazer e... Desculpe pela minha amiga, ela tem sido má com você, mas é com todo mundo
- A Brenda não é... Quer dizer, eu pensei que estivessem juntos
- Não, somos só amigos, eu sou namorado da Kate, melhor amiga dela...
- Ah, a agarota que chutou minha mochila, sei... - Rimos, depois nos despedimos e eu fui até a mesa, achei o Willie muito gentil, mas convencer a Edna de que ele era um cara legal estava fora de questão
Assim que a aula acabou e nós saímos do ônibus, pude ouvir uma menina daquelas murmurando algo tipo "Esquisitas". Lutei para me conter nessa, mas saí rapidamente do ônibus antes que pudesse socar a cara de alguém, saltamos na calçada e eu comecei a seguir a Edna, entramos num lugar com algumas árvores, provavelmente à caminho do trailer dela, depois de uma certa caminhada por uma trilha, chegamos ao local onde ela estava instalada, tinha uma churrasqueira em frente ao trailer, umas bandeirolas rosa-claro e verde-limão penduradas entre o lado de dentro e um galho de árvore, dois divãs ao lado da churrasqueira e eu conseguia ver por dentro do trailer umas mobílias como um sofá meio velho, uma TV pequenininha e uma escrivaninha com um computador velho, era uma vida bem simples que ela parecia levar.
| Dentro do trailer tinha essa foto num mural |
- Sei lá... Ver TV?
- Ah, vamos! Você pode fazer mais do que isso! - A Edna riu
- Ahn... Toca alguma coisa?
- Toco - Ela entrou e demorou um pouquinho, mas logo voltou com um tambor enorme - Gosta daquela música... Price tag?
- Gosto sim - Ela começou a tocar, eu sentei num dos divãs ela começou a cantar, e eu a ajudei a cantar, a gente formava uma bela dupla - Você canta bem
- Obrigada, você também.
- HAHAHA, que mentira! Nunca nem fiz curso!
- Sério? Minha voz só é assim porque eu fazia curso desde os dois até os dez anos de idade...
- E você também toca muito bem esse... Tambor hippie aí...
- Hahahahaha, aprendi ano passado, quando me mudei pra cá, os meus pais de vez em quando me mandam uma grana... Quase. Eles deixam num arbusto aqui em frente dentro de um envelope um pequeno dinheiro, e isso eu invisto em ações que promovem os direitos humanos e animais, o que eu ganho com meus quadros dá para eu sobreviver...
| Ela, pelo visto adora pintar, né... |
- Não é não... É bom, eu me tornei independente antes dos 15 anos, e graças à ligação com a natureza que eu criei, eu não tenho oscilações de humor muito drásticas como a maioria das adolescentes
- Não sei se eu ficaria tão feliz em não fazer mais as unhas pelo resto da vida, ou... Sei lá, sem comprar roupas novas e sem toda a mordomia que eu tenho, não sei não... Você é forte isso sim
- É uma questão de ponto de vista, eu ainda tenho produtos de cabelo, esmaltes, maquiagem... Planejava fugir de casa desde os onze anos, três anos depois que o meu pai começou a me ensinar direção num carro tipo bug na fazenda da minha tia-avó, Peggie.
- Sua família era tão terrível assim?
- Bem... Eles me davam o que eu queria, mas eu senti que eles não me entendiam, que eu não estava fazendo bem para eles e eles não estavam fazendo bem para mim... Sabe, eles eram muito sofisticados, viviam em clubes executivos, salões de festa exclusivos e não saíam do salão de beleza. Enquanto tud o que eu queria era me vestir com uma roupinha velha e protestar pelos direitos humanos, eles não gostavam disso, me pressionavam para ser igual a eles, mas eu não aguentei. De tanta pressão, fugi de casa, à fim de encontrar algo que me fizesse feliz e... Encontrei
| Também tem carne de soja |
- Eu faço churrascos vegetarianos junto com meu clube, com o nome 'poder da flor' escolhido pela avó de uma das minhas amigas
- Que legal! Vamos preparar alguma coisa para comer, então!
- Aqui, vem
Ela me levou até a prte de dentro do triler e pegamos alguns legumes, depois fomos com os temperos até a churrasqueira e começamos a fazer a comida, no final das contas, o churrasco havia ficado ótimo e nós até dividimos uma couve de bruchelas com um esquilo, depois de comer, ela colocou um CD hippie para tocar e nós subimos no trailer para dançar como se estivéssemos num palco. À noite a Edna perguuntou se eu não queria ficar lá para fazermos uma festa do pijama. Eu concordei, ela dormia num saco de dormir e tinha um sobrando, a gente contou estóris de fantasmas, olhou as estrelas, zoou uma foto da Brenda e até tocou mais um pouco.
Acordei de manhã e a Edna falou
- Amiga, é melhor você ir pra casa antes que seus pais fiquem muito irritados
- Verdade, tchau, amiga!
| Edna em seu saco de dormir :) |

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