Nós continuamos andando, mas a cada passo que dávamos a tal aldeia parecia mais e mais longe, em pensar que aquele era apenas o primeiro dia... A noite chegou e tivemos que nos acomodar no chão, a Karey fez uma fogueira.
- Desculpa implicar tanto com você - Ela falou quando nós estávamos sentadas em volta da fogueira, eu estava afinando o meu violão e ela mexendo no fogo com um graveto - É que na verdade, desde que você começou a fazer sua primeira aula de piano, todos diziam que você tinha um talento natural, que você era perfeita para isso, todos percebiam o quanto você era talentosa quando conseguia tocar quase todas as musicas que conhecia no piano, temas de aberturas de desenhos, grandes obras musicais, trilhas sonoras dos filmes de ação que assistíamos. E isso apenas aos sete anos, então você começou a fazer outros cursos... E me mostrou o quanto era boa. Sinceramente, Bella, eu implico com você porque morro de inveja do seu talento. Porque você é perfeita, é a mais bonita de lá de casa, e provavelmente é a única que vai ter uma chance de fazer sucesso se não for bem na escola. E eu tenho que me matar todos os dias para conseguir uma nota na media no colégio para não decepcionar mamãe e papai
| Eu sempre fui muito boa mesmo |
- Eu não sou perfeita. Se eu fosse perfeita, seria como você. Minhas roupas agradariam as outras pessoas, eu não seria tão deslocada da família como disse o papai, eu não estaria repetindo a sexta serie ate ontem. Eu sei la, eu seria... Normal. Mas tem um lado bom, pra mim: Eu não quero ser perfeita porque ninguém alcança a perfeição, então se você sabe que não vai agradar a todos e por mais que você se esforce as pessoas só vão enxergar o seu pior, porque eu deveria tentar tanto?
- Porque eu cresci aprendendo que tinha que ser boa em tudo, mas eu não sou. Eu sempre tentei ser perfeita e nunca, NUNCA consegui. Eu queria tocar piano quando eu crescesse, sabe... Musica clássica, mas a mamãe e o papai nunca me deixaram entrar num curso, por isso eu implico tanto, você é melhor que eu na única coisa em que eu queria ser perfeita e então eu pensei...
- Que deveria ser perfeita em todo o resto e esfregar isso na minha cara?
- É... - Percebi nessa hora que o violão estava afinado, eu comecei a tocar então aquela musica da Selena Gomez "Who Says", eu não escuto muito ela, mas eu escutei uma ou duas vezes essa musica e é o suficiente para saber tocar e cantar. Quando finalmente acabei a musica ela sorriu pra mim e disse - Parceiras?
| O meu cabelo estava todo despenteado e bagunçado |
- Parceiras - Era assim que fazíamos as pazes (em raras as ocasiões) quando eu tinha dez anos. Fomos dormir e quando acordamos, foi com o sol queimando nossa cara, eu me sentei dentro do meu saco de dormir e comecei a cutucar a Karey - Karey, Karey! Acorda, a gente tem que continuara andando! Não estaremos seguras ate chegarmos a aldeia
- Que horas são? - Ela perguntou bocejando
- Eu não sei, ontem foi o fim do mundo, esqueceu??
- Como esqueceria o dia em que minha mãe e meu pai morreram?
- Otimo, sua memória não falhou! Agora vamos!!
Levantamos e arrumamos nossas coisas. Peguei o meu violão e continuamos andando, naquele mesmo ritmo, e por mais que tentássemos, não chegávamos nunca aonde queríamos. Estava quase escurecendo de novo quando chegamos, tinham muitas casas, muitas mesmo, era como se o mundo inteiro tivesse se mudado para lá
- Quem são vocês? - Perguntou uma mulher com cabelos castanhos, olhos claros, parecia
| Margharett... Ou Ivie, nao sei diferencia-las |
amedrontada em ver a gente, o Senhor Giggles Mickey Jackson Terceiro estava no meu bolso - Quem são vocês e o que estão fazendo aqui? Anda, respondam! Vocês vieram nos saquear? - Ela começou a chorar - Voces vieram nos saquear como eles fizeram, por que estão fazendo isso? POR QUE ESTAO NOS MALTRATANDO, POR QUE??
- Calma!!! A gente não vai te machucar! Eu sou a Isabella e essa é a minha irmã, Karey, nossos pais morreram ontem. Nós precisamos de um lugar pra ficar aqui tem espaço? Ou... Sei lá, vocês conhecem algum lugar em que possamos ficar?
- Podem ficar aqui - Falou uma garota igual a ela, uma irmã gêmea, ela estava calma e chegou por trás da outra menina - Desculpem a minha irmã, Margharett, eu sou a Ivie. Umas pessoas passaram aqui ha poucas horas e eles nos assaltaram, a Margharett ficou muito apavorada e deveria estar em casa à uma hora dessas. Venham meninas, eu chamo o resto da vizinhança para ajudar vocês a construírem sua casa.
Elas nos ajudaram a construir nossa casa, foram muito hospitaleiras com a gente. Poucas semanas depois, já estávamos quase completamente adaptadas aquele estilo de vida, a Karey cuidava da horta que havíamos plantado perto de nossa casa e eu cozinhava. As coisas estavam indo muito bem, os dias agora passavam com mais facilidade e parecia que estava tudo bem, eu, minha irmã, e o Senhor Giggles Mickey Jackson Terceiro havíamos criado um enorme vinculo familiar que eu nunca havia sentido na minha vida. Eu estava cozinhando uma sopa, estava quase anoitecendo, quando a Karey entrou com algumas frutas e verduras nas mãos
- Bella, você pode lavar isso pra mim? - Nessa hora, notei que eles estavam sujos de sangue, e a mão dela estava com um corte enorme
- Karey, o que foi isso??
- Ah, eu me cortei um pouco, não foi nada demais - Ela pegou um pouco de algodão, gaze e fez um curativo
- Ta legal - Era apenas um corte, depois que ela lavou, notei que não estava tão largo assim, precisaríamos de um remédio mais tarde... Eu terminei de fazer a sopa, nos jantamos e o nosso camundongo tomou a sopa em uma xícara que eu enchi para ele
Logo depois do jantar fomos dormir e o Senhor Giggles Mickey Jackson Terceiro rastejou ate o bolso do meu moletom, era onde ele dormia, eu peguei o meu saco de dormir e deitei. Na manha seguinte, recebemos uma visita de um amigo nosso, o Ethan, ele era baixinho, gordo e tinha o cabelo liso e loiro, ele era ate fofinho e havia vindo nos convidar para um piquenique que ia ter ao meio dia
- Claro que estaremos lá, e por falar nisso, o seu pai passou nos restos de alguma cidade por esses dias, eu estou precisando de um remedinho para arranhões... - O pai do Ethan saia o tempo inteiro da aldeia para as cidades para poder coletar alimentos, remédios, objetos, e o que quer que fosse para manter aquela gente bem, ele dava tudo de graça e aquela altura o dinheiro não estava valendo nada mesmo.
- Ele vai passar esse domingo, provavelmente vai voltar com muito remédio, ele sempre volta
- Nossa, que bom
Depois disso, eu preparei meu café da manha e depois de comer fiquei tocando um pouco de violão... Sentia saudades da minha bateria, violoncelo, piano, gaita de fole, flauta, violino, guitarra elétrica, do baixo, sentia falta de absolutamente todo o resto, é claro que eu gostava da minha vida, era muito bacana poder viver mais ao ar livre, com mais simplicidade, mas eu sentia tanta falta de tocar meus outros instrumentos que quase entristeci completamente naquele momento, quando percebi que o Senhor Giggles Mickey Jackson Terceiro ainda estava no meu bolso, ele saiu de lá rapidamente e, então eu segurei ele na mão, lembrei de quando mamãe e papai morreram a poucas semanas daquele dia... Um pouco triste... Lembrei do momento em que vi todos os meus instrumentos estraçalhados no chão... Nesse momento senti vontade de chorar, mas consegui conter, porque ha uma coisa que eu simplesmente não agüento fazer: Chorar. É como mostrar pra todo mundo o que me deprime e dar a eles a chance de fazer isso quando quiserem! Chorar nunca esta nos meus planos, mesmo que eu queira. Fiquei o resto da manha quase inteira acariciando o Senhor Giggles Mickey Jackson Terceiro. Estava quase chegando o meio dia, era melhor eu i chamar a Karey para o piquenique
| Amo quando tem piquenique |
- Karey - Falei cutucando-a, as noites eram tão frias naquele lugar que a pele dela ficava geladinha, assim como a minha também estava e a do nosso ratinho, ela tinha sono pesado, então não acordou - Karey - Falei mais alto e dessa vez, balançando-a com mais forca... Ela não se mexia, não se mexia mesmo, eu estava começando a ficar preocupada - KAREY LEVANTA AGORA!! - Acertei uma tapa bem forte nas costas dela, ela não acordou, peguei sua mão e removi o curativo, vi que o machucado estava bem mais largo e profundo do que eu deduzira... Eu tinha que encarar os inevitáveis fatos: A Karey estava morta. Pelo modo como eu me preocupei com ela, eu esperava sentir vontade de chorar, mas conseguir contê-lo... Infelizmente não... Não senti vontade de chorar, não senti tristeza, por mais que eu tentasse não conseguia passar da indiferença total... O Senhor Giggles Mickey Jackson Terceiro começou a cheirá-la - A enterramos essa tarde, ou aqui vai ficar com um mau-cheiro horrível - Juro que tentei ficar triste, pensar em todos os momentos maravilhosos que passamos juntas, mas... Não pude deixar de pensar apenas que o meu camundongo era uma gracinha... Não entendia direito... Mas acho que a Karey não era nada demais assim. Apenas uma pessoa, assim como a minha mãe, depois o meu pai...
Fim.
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