A epidemia estava regredindo, a humanidade quase toda devastada, grande parte da população da terra que mais se pareciam com os humanos eram vampiros, os zumbis estavam morrendo, morrendo de fome pela quase extinção dos humanos, morrendo pela alta quantidade de tolos vampiros que os bebiam apesar de seu sangue contaminado que seria capaz de nos matar, não nos transformaria em um deles, não... Vampiros não podem virar zumbis, já estamos tecnicamente mortos. Mas eu tinha que admitir, também estava difícil para mim sobreviver sem a presença do sangue humano na minha boca, eu só percebi a força desse vício quando fui obrigada a superá-lo, agora tudo o que eu tinha eram animais da floresta próxima à casa em que eu vivia.
 |
| Eu |
Eu estava sentada numa das cadeiras da minha casa, lendo o meu livro como de costume, ainda me lembrava como se fosse ontem o dia em que Orgulho e Preconceito foi publicado, aquela época havia sido tão maravilhosamente próspera para a humanidade, e agora estavam quase extintos, tais como os zumbis, à medida que vou envelhecendo percebo o quanto o mundo dá voltas, cada vez mais exageradas, cada vez mais curvas, cada vez mais voltadas aos polos, o mundo está sempre buscando os opostos... O sol ia se aproximando, mas eu não queria parar de ler o meu livro, não no trecho em que eu estava, mais de duzentos anos lendo e relendo Orgulho e Preconceito e nenhum casal jamais me deu ânimo, jamais me deu os mesmos calafrios e emoções descontroladas que Elizabeth e Darcy me davam. Eu estava aliviada por estar lendo, quando o sol começou a bater de leve na minha mão, começou a arder, queimar, eu via a fumaça saindo e ouvia o som de grelha que a minha mão fazia em contato com a luz solar, rapidamente a retirei de onde fazia sol, num reflexo desesperado e tão forte - Quase involuntário - Que deixei o meu livro cair e desmarcar suas páginas
 |
| Essas janelas ainda vão me matar |
- Ah, tá de brincadeira!!! - Berrei quando vi o que havia feito, o sol se aproximava um pouco mais, resolvi correr para o meu quarto, onde não haviam janelas. Sentei encostada na parede, segurando a minha mão queimada, ela estava com uma textura seca, quente, doía, eu comecei a assoprar e alisar - Até onde o meu vício irracional por leitura vai me levar em tempos pós-apocalípticos como esses?
Recolhi minhas pernas e as abracei, tranquilamente sentada no meu quarto, eu esperava a noite enquanto observava... O meu caixão inclinado, encostado na outra parede, um inútil espelho localizado atrás da porta, juntamente com o crânio da minha última vítima, a última pessoa que teve o privilégio de ser bebida por mim, mais à direita, estavam algumas estantes a uma mesa, todas cheias de coisas que tentaram usar para me exterminar, alho, cruzes, garrafas de água benta já gastas e rachadas no fundo, estacas de madeira, mas a única coisa que inúmeras vezes quase me matou de verdade foi a maldita luz do sol, que quase destruíra a minha mão naquele momento. Resolvi então aguardar a noite, quando eu finalmente sairia de casa para comer
 |
| Eu sempre durmo de cabelo preso |
alguma coisa e mergulharia a minha mão dolorida nas gélidas águas da lagoa que ficava na floresta em frente à minha casa, enquanto não escurecia, resolvi dormir, encostei no meu caixão aberto, fechei a porta e afundei em sua textura macia. Caí no sono, segundos depois comecei a sentir vontade de me mexer, de correr, gritar, sentir vontade de acordar e beber algum animal, abri os meus olhos e saí rapidamente do caixão, a minha
mão ainda doía, corri para o lago e afundei na água, como era de se esperar ela estava gelada, a mantive ali até que parasse de doer, era um alívio sentir aquilo, ao meu lado, chegou um guaxinim próximo à água para
bebê-la, o agarrei com as mãos e o bebi, depois de alguns segundos seu sangue acabou, mas eu estava saciada, não era tão bom e demorado como beber sangue humano, mas isso garantiria a minha sobrevivência e era o que importava, eu ainda tinha sanidade para perceber que no momento a minha sobrevivência importava mais que a minha abstinência a sangue humano, o que foi comprovado quando dois zumbis invadiram o local e não me viram, apenas continuaram no seu andar letárgico de sempre, mancando, a cada passo mais lentos e mais fáceis de se atacar, a cada passo com mais
 |
Aqui está a abusadinha que entrou na minha
casa! |
sangue, mais suculentos... Antes que atacasse algum deles, eu corri para a minha casa, bati a porta com força e ouvi um grito, era um humano, um humano estava na minha casa, eu sentia seu cheiro, sentia minhas pupilas dilatando, um sorriso maligno veio ao meu rosto sem nenhum motivo. Farejei o humano até o meu quarto... Ela me olhou apavorada
- Que merda está acontecendo aqui?? O que você está fazendo no meu quarto? Na minha casa?? - Perguntei raivosa, só queria matar aquela loirinha esquisita que de alguma maneira, havia adentrado o meu refúgio
Nenhum comentário:
Postar um comentário