02/11/2011

A fuga

   - Eu... Ahn... Eu... - Ela estava apavorada, para o bem dela achava melhor ela acabar com esse medo, o cheiro do sangue dela estava mais forte, eu queria muito beber sangue humano e não querer ser a responsável por um grande passo na direção da extinção humana já não me parecia mais um motivo para não atacar ali e naquele momento o pescoço dela
Nhac!
   - Está infectada? O que está fazendo na minha casa? Eu te fiz uma pergunta e quero que me responda antes que eu mude de idéia e acabe com o seu sangue em menos de dez segundos! - Ela começou a chorar
   - Eu não sei! Eu estava fugindo dos zumbis, sua porta tava aberta, eu queria me esconder!
   - Saia daqui agora!
   - Não! - Ela estava chorando mais alto ainda, iria atrair os zumbis todos para a minha casa! - Se me por pra fora eu vou morrer!! - O que seria exatamente como se eu a atacasse, mas assim eu não sugaria cada gota de sangue de suas veias em meu benefício - Eu não sei lutar!! Eu só preciso de um abrigo, eu não tenho casa!! - Eu suspirei desapontada comigo mesma pelo que eu ia fazer, sabendo que seria uma das maiores besteiras da minha vida
   - Qual o seu nome? - Perguntei com indiferença
   - Laura
A porta do meu quarto, usei a mesma madeira
que foi usada para construir a minha casa, mas
só nessa porta '-'
   - Sou a Carmen, você pode ficar aqui, mas há três regras: Primeira: Não toque em nada. Segunda: Fique longe do meu quarto. Terceira e última: Não tenho quarto de hóspedes, então você vai dormir no sofá. Agora, seguindo a segunda regra - Eu pus a mão nas costas dela e comecei a conduzi-la até a porta do quarto - Saia do meu quarto antes que o cheiro do seu sangue o impestie de vez
   - Minha nossa! Você não sabe como estou agradecia à você! Qualquer coisa que precise é só pedir, sério! Eu sou muito...
   - Cai fora - Bati a porta na cara dela e depois tranquei
   - Muito obrigada mesmo, Carmen - A voz dela saía meio abafada pelo outro lado da porta, ela finalmente desceu as escadas e me permitiu respirar ar puro
   Sei que pode parecer maldade o modo como eu a tratei, mas eu não fui com a cara dela, eu não gostei dela, pois percebi que ela é bisbilhoteira e entrona. Ainda fui boazinha e a deixei morar na minha casa, sem que isso seja um plano para atacá-la na próxima noite. Eu apenas queria conservar vivo um espécime em extinção e acho que não é pedir demais que ela respeite as regras e não fale comigo, tipo nunca. Eu fui sair pela janela, ela é de madeira e está sempre fechada, por isso às vezes esqueço que ela fica ali, mas é muito útil para sair de casa quando quero caçar animais e passear, antes, resolvi ordená-la:
   - Tranca a porta da frente! - Berrei um pouco antes de saltar pela janela
   Passeando pela floresta, eu olhava as árvores, gostava de sentir a noite me fortificando, me energizando, gostava de sentir seus ventos frios sobre minha seca pele, nenhum zumbi por perto... "Ótimo" Pensei "Tenho que admitir a mim mesma: Depois dessa epidemia a Transilvânia nunca mais será a mesma... O mundo nunca mais será o mesmo!" Os meus pais haviam me ensinado quando eu era pequena que vampiros não eram bons, e que não era bom ser um vampiro, e para eu não chegar perto deles, mas aos 16 anos eu quis dar uma de adolescente-rebelde-e-super-fodona e virei uma vampira, agora é isso! Tô me fodendo para superar o vício em sangue de gente.
   O sol começou a sair vagarosamente, antes que começasse a me queimar, resolvi voltar pra casa, entrei pela própria janela mesmo, deviam ser umas cinco e quarenta da manhã, mas afinal, será que em uma época
Com certeza não existiam horários, o último
relógio do mundo, que muito provavelmente
foi o da minha casa, havia parado de funcionar
há sei lá, uns três meses...
como aquela ainda existiam horários? Duvido muito. Recostei no meu caixão, como não havia notado como estava cansada? O dia realmente me deixava sonolenta, eu só esperava realmente que a Laura não tivesse revirado a casa de ponta-cabeça. Comecei a dormir, e voltei a sonhar com os bons e velhos tempos, com a minha mãe e o meu pai vivos... De como apenas respiravam fundo ao invés de gritar comigo, de como cheiravam, de como eram doces, por isso foi tão bom bebê-los, não sei se foi por isso ou se foi por eles terem sido as primeiras pessoas com as quais eu me saciei... Me lembrava naquele sonho exatamente da sensação, o cheiro do sangue deles, o momento em que corri para perto, agarrei o pulso deles e antes que pudessem reagir... Eu abri os olhos, e realmente estava com um braço nas mãos, ainda não o havia mordido, mas... Era a Laura e ela ainda estava dormindo, por sorte não teve o horror de olhar na minha direção e ver minhas enormes presas quase cravadas em sua pele. "Meu Deus!" Pensei "Se for para conservá-la viva e humana assim, a melhor coisa a fazer seria ficar longe dela, mais longe ainda... Mas não posso expulsá-la ou ela será devorada por zumbis..." Não acredito que iria fazer aquilo
                                                                             ***
   "Não acredito que fui expulsa da minha própria casa por uma maldita humana!!" Berrei em minha cabeça enquanto saía pela janela sem que a pobre nem notasse a minha ausência. Agora estava acabado, eu me via simplesmente sozinha tendo que sobreviver à tentação de devorar qualquer zumbi que fosse, não sei se isso era possível, mas um medo que sempre me assombrou foi encontrar um dia um zumbi que foi transformado em vampiro também, mesmo que não existisse, e se já existiu foi morto pela luz do sol, eu tinha medo de encontrar um desses, pois seria obrigada a lutar corpo a corpo contra ele e não resistiria a uma gota de seu sangue suculento! Mas ali estava eu, andando pela floresta, com apenas a alça do meu caixão nas mãos, e dentro dele, nada mais que a melhor história já escrita na face da terra, sentimento e pessoas, exatamente, meu livro.
MEEEEU LIVRO (NHAAAAAAA)
   No momento em que minhas pernas cansaram e mais uma vez o sol estava quase clareando minha doce escuridão, eu encontrei uma árvore firme o suficiente para deixar o meu caixão encostado aquele dia. O apoiei no seu tronco grosso, escuro, quase negro, cheio de farpas, ele parecia se enrolar em si mesmo, abri o meu caixão, entrei, e aquela foi a primeira vez que eu dormi com meu livro em mãos, pouco antes de adormecer, percebi que não poderia levar o meu caixão comigo o caminho todo, o meu livro iria, sempre, mas o meu caixão ocupava muito espaço e fazia muito peso, e teria que ser deixado de lado...

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