11/11/2011

O reencontro

   Acordei e era noite de novo, peguei o meu livro e saí andando, deixando meu caixão ali encostado na árvore, exposto à qualquer coisa que o pudesse danificar... Comecei a caminhar pela floresta tranquilamente quando ela quase que magicamente acabou, de lá começou uma estrada com o chão rachado, de um lado a outro viam-se prédios altos quase que desmoronando, fios soltos de alta tensão... Uma cidade fantasma, ou melhor dizendo: Uma cidade zumbi.
   Todos aqueles corpos contorcidos e mancando em todas as direções, agiam como se eu fosse um deles, pois não sentiam cheiro de carne humana em mim, mas eu sentia o cheiro de sangue neles... Minhas presas aumentaram cinco vezes de tamanho, já estavam passando dos lábios. Era como se eu estivesse me preparando para atacá-los, mas eu não queria, só sabia que a qualquer momento, eu acabaria voando em cima de um zumbi, mesmo que contra a minha vontade, eu tentei sair de lá, mas nenhum lugar que eu olhasse estava livre de zumbis, todos os lugares que eu identificava estava impestiado com aquele cheiro, e isso correria por quilômetros e mais quilômetros "Deus me odeia!" Pensei "Zumbis tinham que ser criaturas noturnas? Tinham? Só me responde isso! Tinham mesmo que agir à noite???" ÓTIMO! Agora eu estava falando comigo mesma, qual seria a próxima, pular de um penhasco? Eu comecei a correr, correr para todos os lados, mas haviam zumbis ali e ali, em toda parte, nesse momento
Todos os andares desse jeito
cheguei a quase duvidar que aquela seria a fase final do apocalipse zumbi, porém todos estavam rastejando, alguns nem andavam... Muitos morreriam dali a poucos dias. Entrei num prédio abandonado e, subindo as escadas deterioradas do local, pude chegar em poucos segundos ao 30º andar, para poder olhar de cima, para poder ver tudo, no telhado do prédio, então, senti um prazer macabro, um tipo de prazer assustador, pois ali podia ver toda aquela aglomeração longe de mim, abaixo de mim, rodeados pela maldita escuridão da noite "Perfeito" Pensei "Esse é o ligar perfeito para eu passar essa noite" O cheiro do sangue deles não chegava tão longe, o sangue dos zumbis tinham um cheiro um tanto leve, era muito suave para ser percebido pelo meu faro da distância que estava, era como se o cheiro deles se dissipasse no ar, desaparecesse completamente, acomodei-me onde estava, e retomei a leitura do meu livro, procurei a página em que eu estava antes de derrubá-lo no chão... Procurei... Procurei... Procurei... "Finalmente!" Pensei, prazerosa ao encontrá-la depois de tanto procurar.
   Comecei a ler, não tinha nada que eu gostasse e que me distraísse mais que uma boa leitura, no caso, Orgulho e preconceito era a minha única opção, e exatamente o que eu escolheria se tivesse mais. O vento soprava no meu cabelo, e eu tinha a ligeira impressão de que aquele prédio estava começando a balançar também... E mais uma vez, nesse momento, encolhi os meus braços de medo, ainda segurando o livro aberto, marquei a página em que estava e o fechei, sabia que o prédio não estava balançando, e não cairia, mas eu sempre tive medo de altura, sem comentar que o prédio era velho, poderia desabar se zumbis resolvessem atacar a sua base... Ou não. Eu estava começando a ficar angustiada, abraçava o meu livro, cada vez mais apertado, cheguei a quase torcer a sua capa dura, mas parei no momento em que senti que o danificaria. Respirei fundo e fiquei olhando lá de cima, para o céu, a noite toda o vento batia na minha cara, e eu sentia que o prédio iria cair. Esperando a noite passar, e mais uma vez o dia se aproximava, o meu problema agora era encontrar um lugar para dormir... Sem meu caixão eu não me protegeria do sol, se eu descesse um andar, não seria seguro dormir, pois eu provavelmente, antes mesmo que pudesse perceber, beberia um zumbi e estaria me sufocando e morrendo em poucos segundos...
 Encontrei, então, uma pequena caixa de papelão, embaixo dela, o sol com certeza não estaria batendo, metamorfoseei rapidamente em um rato, rastejei para dentro da caixa, é claro que eu poderia ter virado morcego também, mas naquele momento, uma ratazana seria mais conveniente e benéfico, a caixa estava escura, o sol não me queimaria lá dentro, me encolhi, deitada no canto direito e dormi como uma pedra.
   Acordei então, com um barulho, alguém havia tropeçado em algo, o sol estava entrando de leve em um furo no canto superior da caixa, levantei-a de leve com a minha cabeça, o Sol não estava tão forte, certamente que não me queimaria se eu saísse...
   - MAS QUE DROGA!! - Berrou a pessoa que caiu no chão, era humano também, eu podia sentir seu cheiro... Estava usando um capuz e uma calça jeans
   Tomei de novo a minha forma original e me aproximei vagarosamente do indivíduo enquanto ele se levantava, ficou imóvel enquanto eu chegava perto dele, obviamente, havia pensado que eu era um zumbi e por isso fez o que fez: Ela cravou na minha costela uma estaca de madeira, se eu ainda fosse viva não teria mais dez segundos para expulsá-la do prédio, pois estaria caída no chão, chorando e sangrando com uma estaca presa em meu tórax, mas eu não estou mais viva... E a Laura percebeu isso quando viu que foi a mim que ela havia tentado matar
   - Carmen? - Ela perguntou aterrorizada, arregalou os grandes olhos azuis e abaixou o capuz que estava por trás do cabelo loiro que estava preso em duas tranças
   - Laura - Falei friamente, enquanto agarrava a estaca com a qual ela havia atravessado a minha costela, girei-a no sentido horário e retirei de meu corpo, em poucos segundos, a minha pele se regenerou, como se nunca tivessem cortado aquela região, apenas a minha blusa ficou rasgada - Não acha que já devia ter aprendido, menina, que alho, água benta, estacas de madeira e crucifixos não nos causam o menor efeito? Apenas a luz do sol é capaz de matar os vampiros. Então, o que veio fazer aqui?
   - Bem... Eu... Eu não esperava te encontrar aqui, pensei que você fosse um deles e...
   - Por que não está em casa?
   - Por que...
O que faz os humanos pensarem que isso iria
nos matar pelo amor de deus?
   - Eu saí daquela casa apenas para não te matar, por que você saiu dali?
   - Ela... Ela pegou fogo!
   - Sério? Não podia dar uma desculpa melhor? E pelo visto você entrou no meu quarto também, não é? - Apontei para a água benta que eu vi em seu cinto
   - Não! Quer dizer... Sim! A sua casa foi atacada por zumbis enquanto eu estava sozinha e... Eles já tinham quebrado tudo atrás de mim, eu fui obrigada a arrombar a porta do seu quarto, me desculpe, Carmen! Eu estava apavorada, eu peguei tudo o que pude contra vampiros que podiam ser agressivos comigo e contra zumbis, mas, mas...
   - Esquece! Agora que você não tem onde ficar eu sou responsável por você! Parabéns! Você acaba de me arranjar um peso para carregar por aí! Você é um espécime em extinção, uma humana, logo sua espécie vai acabar se ninguém tentar mantê-los vivos, eu vou te proteger do que precisar, mas não toque em mim, não fale comigo, não me olhe nos olhos, não pense em mim, está escutando?
   - S... Sim
   - E só mais uma coisa: Viajaremos durante a noite, aproveite o dia para dormir, só isso!
   - Tá certo...
ELA ESTAVA COM INVEJA DA MINHA
CAIXINHA E QUERIA SÓ PRA ELA TÁ!!
MAS EU SAQUEI O PLANO MALIGNO
DELA
   - Boa noite - Me transformei mais uma vez numa ratazana e entrei na caixa - E não quero saber de cortes ou ferimentos durante a viagem! - Completei
   - Tá...
   Depois de um tempo, consegui dormir de novo, ela provavelmente estava dormindo também, mas eu sabia que ela estava com raiva porque eu tinha uma caixa e ela não! Ela era uma invejosa! Como um maldito poodle loiro com olhos azul bebê que um dia resolverá roubar a caixa adorável de uma linda ratinha albina, ou de um fabuloso morcego, ou ainda de uma cadelinha ruiva com olhos acinzentados (Que, no caso, seria a minha forma humana) ah, como eu desprezo esse poodle!!

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