15/12/2011

Maldito Diário

   O tempo passou rápido no voo da primeira classe, eu nunca me senti tão especial em toda a minha vida, o carro que meu pai alugara já estava nos esperando do lado de fora do aeroporto, lá estava muito frio. Eu estava acostumada aos invernos frios de Bangalore, mas lá era mais frio ainda, era tão frio que eu estava quase paralisada. Entramos no carro sem pronunciar uma palavra sequer, o meu pai rodou por horas com aquele GPS... Definitivamente estávamos perdidos, ele já havia parado três vezes para pedir informações
   - Você deveria ter entrado naquela rua à esquerda... - A minha mãe falou
   - Eu sei bem onde estou indo
   - Mas eu li o nome do hotel está piscando ali - Minha mãe olhou de novo pela janela para ler o nome
   - Escuta, Laboni, você sabe o que é isso? - O meu pai apontou para o GPS - Você sabe que tipo de tecnologia é essa, meu bem?
   - É uma máquina
   - Não é uma máquina apenas! Isso aqui está nos mostrando o caminho certo para o lugar certo, tá legal? Esse GPS conhece cada centímetro quadrado dessa região, se caísse um meteoro em uma das ruas ele o localizaria na hora, eu não acho que nós, vindos da Índia, e que não conhecem porra nenhuma da Rússia, precisamos de uma coisa dessas para achar o hotel, você não acha?
   - OLHA PRA ESTRADA!! - Minha mãe pôs sua mão no volante e virou o carro para que não batesse numa Ferrari que estava buzinando violentamente e vindo na direção oposta à nossa. Quando o carro finalmente parou de se agitar, minha mãe cruzou os braços e encarou o meu pai, depois falou num tom baixo, calmo, e seco - Você quase bateu o carro.
   - Deixa de ser chata, mulher!
Linda, não é?
   - Não estou sendo chata, homem!
   - Gente! - Gritei antes que eles começassem outra briga e meu pai batesse o carro - Eu acho que também vi um nome piscando na rua aqui atrás!
   - Ah, ótimo, agora as duas se viram contra mim e meu GPS, é assim então, tá legal, eu vou virar a rua só pra provar pra vocês... - Ele fez uma bruta curva e entrou na ruazinha onde estava escrito o nome do hotel... - Que vocês estavam... Certas
   "Você chegou ao seu destino" Anunciava o GPS. Meu pai apertou o botão e o desligou. Depois estacionou o carro numa das vagas do hotel e andou conosco até a recepção. Ele começou a falar com a mulher da recepção em inglês e alguns minutos depois de todos os procedimentos que acontecem quando se chega em um hotel, a mulher nos deu uma chave e depois um cara alto, com o cabelo loiro e meio longo, preso num rabo de cavalo e com o uniforme do hotel vermelho e amarelo nos acompanhou até o nosso quarto
E essa era só a MINHA cama
   Quando ele abriu a porta, mal pude acreditar no que havia visto de tão lindo que era! O quarto, pra começar era enorme! Tinha microondas, uma poltrona de massagem uma TV na parede, que é claro que o cara não deixou de comunicar a nós que tinha todos os canais. Uma mesa com três cadeiras e a melhor parte: A cama de casal e a cama de solteiro poderiam ser separadas por um cômodo se eu resolvesse fechar a grande porta de deslizar no meio do quarto, o que significava que eu não teria que ver os meus pais fazendo coisas estranhas a noite toda, talvez eu ouvisse se a porta não fosse de metal com um espelho bem grande na frente. E mais um coisa que me deixou impressionada sobre aquele quarto é que o frigobar mudava de cor! Nossas malas estavam lá e o cara nos deixou sozinhos no quarto..
   - Padma, querida. - Começou a minha mãe tocando o meu ombro - Amanhã você tem o seu primeiro ensaio, e hoje teve uma viagem muito cansativa, tem certeza de que vai poder ir para o...
   - Com certeza. Vou tomar banho, dormir, e espero ser acordada às cinco
   - Mas, Padma... Da manhã?
   - É claro que é da manhã.
   - Mas já são duas...
   - Então melhor eu me apressar.
Sem comentários *0*
   Entrei no banheiro, e como era de se esperar, ele também era maravilhoso, com uma banheira de hidromassagem num canto, um pouco distante da banheira com ducha de tomar banho, pias de mármore, toalhas com o logo do hotel e sabonetes em forma de bichinhos... Até o papel higiênico tinha o logo do hotel e a privada era dourada... Bom, apenas ignorei os maravilhosos detalhes daquele lugar e entrei na ducha, tomei um banho rápido, mas bem tomado o suficiente para tirar a sujeira de mim, pus um pijama bonitinho cheio de ursinhos e corações e fui dormir na cama de solteiro, não me permiti cair na tentação de testar todos os canais da TV que, segundo o meu pai disse à minha mãe durante o meu banho, haviam mudado para o nosso idioma. Apenas dormi naquela cama quentinha.
   Três horas se passaram, mas eu pensei como três segundos e a minha mãe estava me acordando...
   - Padma, Padma! Acha que consegue ir para o ensaio de hoje? - Abri os olhos repentinamente ao perceber que já estava no dia do meu primeiro ensaio
   - Já estou levantando - Todo o meu cansaço desapareceu quando eu joguei para cima os meus cobertores e deixei cair o meu travesseiro no chão.
Pus na mala todos que podia
   Abri a minha mala, onde estava o meu uniforme de balé, em alguns minutos, fiz o meu coque já com a roupa pronta, depois amarrei cuidadosamente a fita da sapatilha da maneira que me ensinaram quando eu tinha onze anos... Acompanhada pela minha mãe, saí do quarto do hotel e fui tomar café... Peguei o meu prato, o tempo todo eu nem havia notado o quanto estava faminta! O enchi com uns pães doces e com panqueca com calda, também comi um prato de waffles depois, e finalmente, quando saciei minha fome, corri para o carro junto aos meus pais.
                                         ***
   Depois de criar todas as coreografias e ensaiarmos o dia inteiro, todos foram para seus camarins, eu estava no meu quando a porta se abriu
   - OI, QUERIDA!! - Era um garoto ruivo, alto e estava fazendo o papel do mago nos ensaios - Você foi assim, super demais, só queria te dizer isso, os ensaios foram uma perfeição por causa de você - Ele tinha sotaque na hora de falar inglês, era um pouco parecido com o meu - Ai meu deus! Eu não acredito que estou falando com a própria Padma Khan! - Ele deu um gritinho agudo e histérico antes de ser chamado por um  garoto igual a ele, porque obviamente, era o irmão gêmeo dele, ele pronunciou algo em russo bem alto, também havia se apresentado, fazia o papel do príncipe, ele gritava o garoto com uma voz grossa e aparentemente com raiva, mas ao me ver, logo veio me cumprimentar também
Evelina
   - Padma Khan! - Ele tinha um sotaque parecido com o do irmão quando falava inglês, mas ele não parecia ser homossexual, diferente de seu gêmeo - É um prazer conhecê-la, você dança muito bem mesmo
   - Bem... Obrigada... - Eu sorri para os dois, até que eles saíram e me apareceu na porta uma menina loira com os olhos claros e me substituiria caso eu não fosse para a apresentação.
   Ela parou na porta e ficou me encarando enquanto eu sorria para ela, mas ela me olhava sério, eu não sabia o que fazer! Estava começando a me assustar...
   - Padma Khan... Não esperava que fôssemos nos ver de novo!
   - De novo? A gente já se viu antes?
   - Há nove anos atrás, não lembra da sua escolinha de balé? - Nesse momento lembrei rapidamente de tudo o que aconteceu há nove anos... Eu era pequena, tinha cinco anos... Minha escola de balé estava competindo contra a escola de balé dela num concurso lá em Bangalore... Ela me encheu de xingamentos dizendo o quanto era melhor que eu e me venceria, mas a minha dança venceu...
   - Ev... Evelina?
   - Até que você pensa rápido para uma indiana - Ela deu um fouette de quatro piruetas até chegar em mim, depois continuou - Pena que vai me superar de novo, Padma?
   - Já superei, eu sou a principal aqui, você não passa de uma substituta secundária - Respondi com grosseria, já me recuperando do choque
   - Pensa que acabou, não é? O que você pensa? Nada! Agora as regras mudaram, Padma! Eu estou na minha terra, na minha casa! O que significa que eu vencerei você dessa vez, eu estou com a sorte do meu lado! - Peguei a minha bolsa, pois havia avistado pela janela do meu camarim o meu pai chegando com o carro
   - Não, Evelina! A sorte não está do seu lado, porque não estamos competindo, eu já estou à sua frente! E não há nada que você possa fazer!

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