- Vamos comer fora, querida! - O que? Como poderiam me forçar a isso?? Com aquela aparência e àquela altura do dia eu só queria tomar banho e dormir!! Mas entrei no restaurante, poderia ser um bom momento para contar a minha experiência...
Adentrei as portas do restaurante, linda decoração. O garçom nos guiou até uma das mesas. Depos de nos acomodarmos na mesa, resolvi então me abrir com meus pais
- Mãe, pai.
- Sim? - Disse a minha mãe
- Hoje eu encontrei uma velha conhecida
- E quem seria?
- É a...
- O que vai querer, querida? - Perguntou o meu pai, mudando bruscamente de assunto
- Eu não sei - Disse a minha mãe - Qual será a melhor sopa?
- Gente! - Me revoltei - Vocês não estão escutando!!
- Oh, sim, diga quem você encontrou, querida - A mamãe sorriu
- Foi a Evelina - De sorrisos e olhares calmos para o cardápio, seus olhos mudaram a expressão para puro terror e arrependimento
- Evelina... Não foi aquela menina que você conheceu há nove anos?
- Sim, a mesma que eu tanto comentei que me chamara de ignorante, burra e que tanto dissera que eu não serviria para o balé, ela vai ser minha substituta
- Padma - Começou o meu pai - Querida, não procure brigas, sim? Tente fazer amizade
- Eu tentei, mas ela não quer ser minha amiga, ela quer se vingar
- Apenas tenha cuidado
O jantar prosseguiu em silêncio, no dia seguinte começou o ensaio e a Evelina me olhava com ódio a cada passo que eu executava. Quando finalmente deu o tempo e pudemos parar cinco minutos para bebermos água, eu fui na direção do bebedouro, mas a Evelina passou na minha frente.
- Não ligue pra ela - Disse uma garota de cabelo loiro, cacheado e que usava óculos - Ela é assim com todo mundo que é melhor que ela no balé.
- E você seria...
- Agafia - Ela estendeu a mão e eu a cumprimentei
- Francamente tenho que admitir, Agafia, tenho medo, muito medo da Evelina, ela me olha como se fosse me matar a qualquer momento...
- Ela não faz mal a uma mosca, acredite - Agafia começou a prender seus longos e cacheados cabelos num coque.
- Espero.
A Agafia fazia o papel da Odile, a filha do mago. Nos divertimos muito durante o ensaio. Com o passar dos dias fui percebendo o quanto a dança ia ficando linda, quantos amigos eu fazia, eu fazia o papel da Odette, por isso estava extremamente orgulhosa tendo apenas 14 anos... Mas por mais que eu tentasse, eu não era a Odette.
- Filha, pare com essa piruetas em frente ao espelho - Dizia a minha mãe no quarto - Vai acabar quebrando alguma coisa no hotel e eu não quero ter que reembolsar.
- Não são piruetas, mãe, são fouettes. - Eu continuei girando - E tem que ser perfeito, eu não consegui encorporar a Odette!
- Francamente não acho que uma garota que virou um cisne saia pela floresta encantada dançando ao invés de pedir ajuda a alguém
- Mãe! Isso é um ballet! Num ballet as pessoas saem dançando e girando até se levam um tiro! - Continuei fazendo fouettes - E mais: Eu tenho que incorporar a Odette antes de quarta-feira
- Então, aprece-se, hoje é segunda - Ela voltou o rosto para o livro e eu ignorei e continuei dançando
***
É o dia da apresentação, eu me sentia um tanto nervosa, não tinha incorporado a Odette como queria! Eu estava no camarim, terminando de fazer o meu cabelo, ainda sem sapatilhas, quando a Agafia me chamou
- Padma, venha ver que loucura a Evelina fez! - A Evelina? Fazendo loucuras? Não me parecia tão difícil, mas essa eu queria ver! Corri até o palco, um garoto havia sido amarrado e amordaçado com fitas da sapatilha dela, que sorte que as cortinas estavam fechadas, eu ouvia as vozes do outro lado delas e foi isso que me apavorou. Nossa supervisora retirou a fita da boca do menino
- Você está bem? - Eu permanecia observando as cortinas apavorada imaginando quantos olhos me veriam não ser a Odette... - Markov, você está bem? - Ele interpretaria o príncipe no ballet, mas o substituto dele havia torcido o tornozelo, se ele não estivesse em condições de apresentar o espetáculo poderia até ser cancelado... - Consegue me ouvir?
- S... Sim - Ele estava tremendo e eu continuava encarando apavorada as cortinas... A supervisora ajudou ele a levantar e o guiou até fora do palco enquanto dizia
- Ele está bem, ele está bem gente, voltem para seus camarins, circulando!
A Evelina havia surtado de vez... Fui para o meu camarim, coloquei as sapatilhas e quando chegou a minha hora, me direcionei ao palco... Agora eu encarava a cortina de novo, meu coração pulava, achava que ele ia sair pela boca, eu quase não conseguia respirar... Ela se abriu. Eu comecei a dançar, mas quando subi na ponta... Senti uma coisa, uma dor, algo estava furando meu pé. Cacos de vidro, e eu já sabia quem havia posto, não parei de dançar. Já sabia que ela só amordaçou o menino por causa daquilo... Eu sentia meu sangue escorrendo pelo meu pé... Quente, doloroso, os cacos de vidro se aprofundavam cada vez mais... Mas eu não perdia o foco da dança... A cada passo que eu executava sentia o olhar da Evelina, agora perfurando meus pés, a cada Grand Gette que eu dava, eu sentia todo o seu ódio contra mim...
Não contei o tempo, não tinha mais sanidade para isso, mas a apresentação acabou e parecia que haviam passado anos para que eu pudesse parar de dançar, as cortinas se fecham, lá e na frente de todos que estavam comigo no palco, eu desmoronei e caí chorando no chão
- Padma, o que foi? - Perguntou o Markov tentando me ajudar a levantar, minha respiração estava ofegante, eu rapidamente desenrolei a sapatilha e a tirei do meu pé ensanguentado
- Ev... - Tentei pronunciar o nome de forma compreensível enquanto me esforçava para respirar de tanta que era a minha dor - Evelina.
Markov berrou alguma coisa em russo que eu não entendi e na mesma hora um monte de gente veio e me carregou até o camarim, a nossa supervisora tirou a minha meia-calça e viu o meu pé enquanto falava no celular. Deitei no chão e comecei a chorar mais ainda, apertando os olhos de dor. Quando me dei conta, havia acordado no hospital, ainda era noite e meu pé estava enfaixado. Um médico e a minha mãe olhavam para mim
- Mãe, a Evelina fez isso! Aquela maluca desequilibrada! O que foi feito dela?
- Já disseram tudo aos pais dela e eles a tiraram do ballet, que a estava deixando agressiva e competitiva, então o espetáculo dessa noite foi cancelado, pois eles não têm uma substituta para você...
- E nem precisam! Eu danço!
- Filha, o seu pé está todo ferido, completamente desfigurado, não vou permitir que você dance nessas condições
- Mãe, a Evelina pode ter posto tachinhas e cacos de vidro na minha sapatilha, mas eu ainda quero dançar! Se fossem fazer isso comigo de novo, eu iria do mesmo jeito, mãe eu amo dançar e não quero que o espetáculo pare!
- Mas, filha eu...
- Não ligo se é perigoso, eu quero continuar! E depois pode me forçar a fazer o que você quiser que eu faça da vida em Bangalore, vou estar feliz, só de saber que dancei nesse espetáculo independente das minhas condições físicas - A minha mãe suspirou
- Embora a voz da razão esteja gritando na minha cabeça para lhe dizer não, eu sei que é isso o que você realmente quer, não é?
- Mais que tudo
- Se o seu pé estiver melhor até lá, você pode dançar.
- Mãe, pai.
- Sim? - Disse a minha mãe
- Hoje eu encontrei uma velha conhecida
- E quem seria?
- É a...
- O que vai querer, querida? - Perguntou o meu pai, mudando bruscamente de assunto
- Eu não sei - Disse a minha mãe - Qual será a melhor sopa?
- Gente! - Me revoltei - Vocês não estão escutando!!
- Oh, sim, diga quem você encontrou, querida - A mamãe sorriu
- Foi a Evelina - De sorrisos e olhares calmos para o cardápio, seus olhos mudaram a expressão para puro terror e arrependimento
- Evelina... Não foi aquela menina que você conheceu há nove anos?
- Sim, a mesma que eu tanto comentei que me chamara de ignorante, burra e que tanto dissera que eu não serviria para o balé, ela vai ser minha substituta
- Padma - Começou o meu pai - Querida, não procure brigas, sim? Tente fazer amizade
- Eu tentei, mas ela não quer ser minha amiga, ela quer se vingar
- Apenas tenha cuidado
O jantar prosseguiu em silêncio, no dia seguinte começou o ensaio e a Evelina me olhava com ódio a cada passo que eu executava. Quando finalmente deu o tempo e pudemos parar cinco minutos para bebermos água, eu fui na direção do bebedouro, mas a Evelina passou na minha frente.
- Não ligue pra ela - Disse uma garota de cabelo loiro, cacheado e que usava óculos - Ela é assim com todo mundo que é melhor que ela no balé.
- E você seria...
- Agafia - Ela estendeu a mão e eu a cumprimentei
- Francamente tenho que admitir, Agafia, tenho medo, muito medo da Evelina, ela me olha como se fosse me matar a qualquer momento...
| Agafia |
- Espero.
A Agafia fazia o papel da Odile, a filha do mago. Nos divertimos muito durante o ensaio. Com o passar dos dias fui percebendo o quanto a dança ia ficando linda, quantos amigos eu fazia, eu fazia o papel da Odette, por isso estava extremamente orgulhosa tendo apenas 14 anos... Mas por mais que eu tentasse, eu não era a Odette.
- Filha, pare com essa piruetas em frente ao espelho - Dizia a minha mãe no quarto - Vai acabar quebrando alguma coisa no hotel e eu não quero ter que reembolsar.
- Não são piruetas, mãe, são fouettes. - Eu continuei girando - E tem que ser perfeito, eu não consegui encorporar a Odette!
- Francamente não acho que uma garota que virou um cisne saia pela floresta encantada dançando ao invés de pedir ajuda a alguém
- Mãe! Isso é um ballet! Num ballet as pessoas saem dançando e girando até se levam um tiro! - Continuei fazendo fouettes - E mais: Eu tenho que incorporar a Odette antes de quarta-feira
- Então, aprece-se, hoje é segunda - Ela voltou o rosto para o livro e eu ignorei e continuei dançando
***
É o dia da apresentação, eu me sentia um tanto nervosa, não tinha incorporado a Odette como queria! Eu estava no camarim, terminando de fazer o meu cabelo, ainda sem sapatilhas, quando a Agafia me chamou
- Padma, venha ver que loucura a Evelina fez! - A Evelina? Fazendo loucuras? Não me parecia tão difícil, mas essa eu queria ver! Corri até o palco, um garoto havia sido amarrado e amordaçado com fitas da sapatilha dela, que sorte que as cortinas estavam fechadas, eu ouvia as vozes do outro lado delas e foi isso que me apavorou. Nossa supervisora retirou a fita da boca do menino
| E eu me achava o máximo quando conseguia dar um laço num galho com a minha fita... |
- S... Sim - Ele estava tremendo e eu continuava encarando apavorada as cortinas... A supervisora ajudou ele a levantar e o guiou até fora do palco enquanto dizia
- Ele está bem, ele está bem gente, voltem para seus camarins, circulando!
A Evelina havia surtado de vez... Fui para o meu camarim, coloquei as sapatilhas e quando chegou a minha hora, me direcionei ao palco... Agora eu encarava a cortina de novo, meu coração pulava, achava que ele ia sair pela boca, eu quase não conseguia respirar... Ela se abriu. Eu comecei a dançar, mas quando subi na ponta... Senti uma coisa, uma dor, algo estava furando meu pé. Cacos de vidro, e eu já sabia quem havia posto, não parei de dançar. Já sabia que ela só amordaçou o menino por causa daquilo... Eu sentia meu sangue escorrendo pelo meu pé... Quente, doloroso, os cacos de vidro se aprofundavam cada vez mais... Mas eu não perdia o foco da dança... A cada passo que eu executava sentia o olhar da Evelina, agora perfurando meus pés, a cada Grand Gette que eu dava, eu sentia todo o seu ódio contra mim...
Não contei o tempo, não tinha mais sanidade para isso, mas a apresentação acabou e parecia que haviam passado anos para que eu pudesse parar de dançar, as cortinas se fecham, lá e na frente de todos que estavam comigo no palco, eu desmoronei e caí chorando no chão
| E eu consegui dançar... |
- Ev... - Tentei pronunciar o nome de forma compreensível enquanto me esforçava para respirar de tanta que era a minha dor - Evelina.
Markov berrou alguma coisa em russo que eu não entendi e na mesma hora um monte de gente veio e me carregou até o camarim, a nossa supervisora tirou a minha meia-calça e viu o meu pé enquanto falava no celular. Deitei no chão e comecei a chorar mais ainda, apertando os olhos de dor. Quando me dei conta, havia acordado no hospital, ainda era noite e meu pé estava enfaixado. Um médico e a minha mãe olhavam para mim
- Mãe, a Evelina fez isso! Aquela maluca desequilibrada! O que foi feito dela?
- Já disseram tudo aos pais dela e eles a tiraram do ballet, que a estava deixando agressiva e competitiva, então o espetáculo dessa noite foi cancelado, pois eles não têm uma substituta para você...
- E nem precisam! Eu danço!
- Filha, o seu pé está todo ferido, completamente desfigurado, não vou permitir que você dance nessas condições
- Mãe, a Evelina pode ter posto tachinhas e cacos de vidro na minha sapatilha, mas eu ainda quero dançar! Se fossem fazer isso comigo de novo, eu iria do mesmo jeito, mãe eu amo dançar e não quero que o espetáculo pare!
- Mas, filha eu...
- Não ligo se é perigoso, eu quero continuar! E depois pode me forçar a fazer o que você quiser que eu faça da vida em Bangalore, vou estar feliz, só de saber que dancei nesse espetáculo independente das minhas condições físicas - A minha mãe suspirou
- Embora a voz da razão esteja gritando na minha cabeça para lhe dizer não, eu sei que é isso o que você realmente quer, não é?
- Mais que tudo
- Se o seu pé estiver melhor até lá, você pode dançar.

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